terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Comportamento

As boas e velhas cartas de amor

Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Já dizia o poeta...

Por Erika Lettry

Tá certo, Fernando Pessoa foi um pouco cruel ao escrever esta frase. Mas não é isso que todas nós temos vontade de dizer aos namorados que resistem em nos escrever uma missiva? Homens não costumam dar muita atenção a este “pequeno detalhe”. E se sentem incrivelmente confortáveis nesta posição. E não, não adianta insistir na idéia ou recorrer ao poema. A maioria dos homens se sente mais ridícula escrevendo cartas de amor do que deixando de escrevê-las.

Juro que não entendo como surgiu este receio. Tenho algumas hipóteses. A primeira: eles temem que a relação termine e fique para sempre o documento de que ele amou aquela mulher (aquela bruxa!) algum dia. Segunda hipótese: a praticidade masculina não permite que eles “percam” tempo com isso. Afinal, se existe distância, existe também internet, telefone e avião para encurtá-la. Terceira hipótese: por mais que se esforcem, eles não conseguem compreender que importância tem algumas letrinhas tortas impressas num papel vagabundo.

Não os culpo. Se há uma certeza que tenho na vida (e não venham me dizer que isto é teoria feminista ou machista), é de que o pensamento dos homens é muito diferente do das mulheres. Eles não entendem nossas obviedades, da mesma forma como não entendemos as deles. Se para eles é um absurdo que não percebamos como é mais prático conversar por telefone, para nós é difícil acreditar que eles não percebam a emoção que sentimos à simples idéia de ganharmos uma carta.

Homens, homens....Definitivamente não percebem que o valor de uma carta é puramente sentimental. Conteúdo? E daí? O que importa? Não queremos saber apenas como foi o dia no trabalho, quais os projetos para o futuro, ou o que tem feito nos finais de semana em que estão longe de nós. Ao recebermos uma carta, importa menos o conteúdo que a emoção. Às vezes palavras bobas, como aquele velho e repetitivo “eu te amo”, ganham muito mais importância quando escritas no papel.

E que delícia ver o nome todo na carta, rasgar com cuidado o envelope, sentir um pouquinho dele atravessar as estradas (ou os oceanos) e chegar até nós! Por tudo isso, vale sempre a lição do poeta:

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Obs: uma ligação interurbana custa uma fortuna. Uma carta social, apenas um centavo. Homens, pensem nisso!

2 comentários:

mariocesar.carvalho disse...

Nem todos os homens tem esta dificuldade.Minha namorada tem mais de 1000 poemas e cartas escritas para ela.
Não vamos generalizar,rs,rs,rs....
Mas mesmo assim adorei seu texto.
Parabéns!

Adriano disse...

Está certo que não podemos generalizar, mas de fato a maioria dos homens, inclusive eu, tem um certo receio e, principalmente no meu caso, preguiça. Espero mudar isso um dia... Mais como dizem por ai: "vivendo e aprendendo".

Parabens pelo texto!

=D