terça-feira, 8 de abril de 2008

Variedades

Bolha tibetana

Por Júlia Lemos

Dentre os diversos conflitos espalhados pelo mundo, adentramo-nos agora na bolha tibetana. Desde 10 de março deste ano começaram no Tibet diversas demonstrações do desespero, demonstrações de um sentimento de opressão e desapropriação de um povo. Estas manifestações passaram a se destacar cada vez mais pela radicalidade e amplitude que atingiram. Em 14 de março as mobilizações já não se restringiam apenas à capital Lhasa, mas também às diversas outras províncias onde comunidades tibetanas residem e que fazem fronteira com a China. A questão que move tanta revolta no Tibet não é nada simples e está longe de poder ser compreendida com um simples passar de olhos pelas notícias veiculadas na grande mídia.

Por um lado temos notícia de que Pequim exerce sobre esta região uma política sistemática de colonização e que a maioria dos ganhos com o desenvolvimento do Tibet vai para o grupo étnico chinês dominante, o “Han”. A revolta e violência dos tibetanos contra tal etnia são assim explicadas por diversas associações de direitos humanos (como, por exemplo, a Europe Solidaire Sans Frontières - ESSF), as quais denunciam a política de Pequim como repressora - tanto nas ações do exército contra as manifestações quanto na exigência da assimilação de uma cultura não-tibetana - defendem que o direito à autodeterminação do povo do Tibet seja confessado pelos diversos governos e pelas Nações Unidas para que seja possível a libertação do povo tibetano da opressão.

Temos, no entanto, uma outra versão dos fatos. De acordo Liam Mac Uaid, editora da revista inglesa Socialist Resistance, o Tibet é excessivamente pobre e marginal à economia mundial para ser realmente independente e desenvolver uma economia nacional por sua própria conta. Além disso, a figura que lidera a campanha pelo Tibet Livre, o Dalai Lama, é também lembrado por muitos estudiosos como a figura que mantém o tradicional esquema semi-feudal de servidão e escravismo no Tibet. Neste sentido, o barbarismo que ocorre no Tibet é ilustrativo do fato de que há muitos anos não existe nenhuma campanha democrática, progressiva, nacional e popular entre o povo tibetano.

Os tibetanos possuem um território, uma cultura e um idioma comum, sendo que se pode localizar um distinção da história tibetana em relação à China há pelo menos 2500 anos atrás. Em 1911, quando a última dinastia chinesa se foi, os oficiais chineses foram expulsos e o 13º Dalai Lama fez uma proclamação que muitos tibetanos consideraram como declaração de independência. Durante muito tempo o governo tibetano não possuiu interferência direta de Pequim. Em 1931 o Partido Comunista Chinês havia tomado a decisão de não interferência na política dos povos de alguns países, entre eles o Tibet. Mas o governo de Mao optou por determinar um prazo para o reconhecimento, por parte do Tibet, da integração à China. Vencido este prazo e dado o não cumprimento da exigência, deu-se início a um processo militar de invasão e repressão do Tibet para este reconhecimento. Em 1951 reconheceu-se pela primeira vez, por escrito, no “17º Acordo”, a soberania da China sobre o Tibet. De acordo com Norm Dixon, colaborador do jornal australiano “Green Left”, Dalai Lama não se preocupou nesta época em unir o povo e defender a independência formal do Tibet, pois o acordo feito com a China não tocava em seus interesses. O Dalai Lama e seu regime ficaram satisfeitos com o acordo, já que a China havia concordado em manter intactos o sistema econômico semi-feudal explorador e o sistema político teocrático opressivo liderado por Dalai Lama.

A paz no Tibet sob este acordo durou algum tempo. Até quando os grandes proprietários começaram a sentir que o monopólio econômico e político deles estava ameaçado com o risco de o governo comunista chinês realizar ali uma reforma agrária. Daí então eles iniciaram uma rebelião reacionária e a vestiram de traje nacionalista, ganhando muitos tibetanos pobres para a causa. Apesar de o Partido Comunista Chinês ter assinado, em 1957, um acordo adiando tal reforma, os proprietários não se contiveram. A política de Pequim então foi radical: 87 mil pessoas morreram, as propriedades das elites religiosas e aristocráticas foram confiscadas e milhares de monastérios foram fechados. E, apesar do governo comunista chinês ter realizado uma reforma agrária que beneficiou os camponeses pobres do Tibet, a maneira arbitrária e violenta com que ela foi feita acabou por aproximar os camponeses dos seus opressores políticos liderados pelo Dalai Lama.

Desde então, a situação não tem sido muito diferente. As políticas da China sobre o Tibet vêm sempre junto com uma opressão para a modificação da cultura deste país. Por outro lado, os camponeses tibetanos e pastores sempre tiveram pequena liberdade pessoal, já que nunca podem fazer muita coisa sem a permissão dos lamas. Os camponeses viveram por muito tempo como apêndices do monastério e em pobreza extrema enquanto uma riqueza enorme se acumulou nestes mesmos monastérios e no palácio do Dalai Lama. Para piorar o conflito, desde 1956 a CIA entrou no processo. Primeiramente treinando guerrilheiros tibetanos e agora agindo de modo mais político. Não é de agora, portanto, que a CIA está bastante interessada na “independência” do Tibet.

Ao que tudo indica, o problema do Tibet possui apenas duas “soluções” nada animadoras e tampouco “libertadoras”: existir como parte da China, com todos os diversos problemas de opressão e conflitos culturais, ou como um estado-cliente do imperialismo ocidental, sob domínio da política tradicionalmente elitista de Dalai Lama, agora ainda mais submisso ao ditames da CIA para garantir seus interesses. A retórica comumente vista de que o reconhecimento formal da independência do Tibet é por defesa da democracia e da liberdade do povo tibetano é, neste contexto, simplificadora de um processo de libertação que ainda está muito além da desagregação do Tibet do domínio da China.

Como se posicionar, então? Tendo a pensar que os direitos de autodeterminação das nacionalidades oprimidas precisam ser apoiados quando um povo deseja a liberdade para se reger. Mas penso que o posicionamento de apoio às demandas tibetanas pela “independência” tem que tomar o cuidado de perceber que não se tratará de uma libertação nacional, mas apenas da possibilidade de o povo do Tibet dar um passo a mais na sua luta, luta que deve ser do próprio povo tibetano, pela autodeterminação. Luta que ainda está longe de terminar.

Um comentário:

Erika disse...

Oi, pessoal, tudo bem?
Conheci a revista através dos scraps que a Lian deixa no scrapbook de uma amiga minha aqui do Pensi.
Sou budista e sigo a escola de Budismo Tibetano Karma Kagyu, foi assim que tomei contato com o Tibet, sua história e suas tradições, bem como os ensinamentos de Sua Santidade o 14º Dalai Lama.
Tenho amigos que têm parentes tibetanos e que estão morando atualmente em Dharamsala, Índia, local para onde a maioria dos refugiados migra. As histórias que chegam através desses "canais" são bem mais graves do que as veiculadas na mídia, caso seja do interesse de vcs, posso enviar algumas fotos que são divulgadas somente em Dharamsala e que minha amiga que mora lá colocou no blog.
Bom, sobre a situação Tibet x China, acho difícil que haja a independência oficial do território, porém, o que o Dalai Lama quer é a independência cultural, visto que ele tem consciência de que a independência total é inviável. O povo tibetano sempre viveu da maneira mais simples possível, com a cultura de não-violência e pelos preceitos budistas, isso explica a simplicidade de seu "estilo de vida". Sugiro que assistam o filme "Kundun".
Infelizmente, o que o Dalai Lama prega não é necessariamente seguido pelas pessoas que lutam pela independência do Tibet, principalmente no que diz respeito a manifestações violentas.
Legal ver uma abordagem assim dessa questão porque foge da mesmice dos noticiários!
Bjs,
Erika