sábado, 14 de fevereiro de 2009

Literatura

De um sono

Por Fernanda Cupolillo*

Pôs as mãos para fora da janela antes mesmo que seu corpo estivesse todo desperto, e, como num primeiro bocejo, deixou que seus dedos reconhecessem, entreabertos, o gosto do dia. Um vento frio rodeou sua pele e aninhou-se no pequeno buraco que separava suas mãos. Distanciou um pouco mais os dedos e deixou que o frio desnudasse algumas de suas dobras. Sentindo-os como minúsculas bolas de neve, trouxe as mãos de volta para o calor do quarto, mas logo tornou a jogar a extremidade dos braços para fora da janela. Sua cama sustentava, ao olhá-lo de longe, embevecido com a força oculta e fria que lhe tomava as mãos, a promessa de um apagamento seguro e quente do corpo. Entre cada um dos cobertores que vazavam as quatro margens regulares do móvel, a umidade difusa de sua respiração, alguns pedaços de sonho, e um calor comprido. De longe, ela o olhava, repleta em braços macios e solares, mas ele lhe dava somente a visão das costas, mantendo-se fiel à sua inesperada curiosidade matutina. Crendo inexistir em seu corpo a espécie de força que experimentava na beira da janela, deixou que as imagens ainda muito nítidas de seu sonho de ontem talhassem pelo quarto. Quentes, elas enlaçavam a sola descalça de seus pés e se enroscavam em seus pêlos, mas a sensação do frio experimentada na janela fazia trincar em pétalas de gelo o calor que teimava em subir. Decidiu sair, ameaçado pelas cores manchadas em seu corpo, e, completamente cinza, abriu a porta de seu quarto. Caminhou pelo estreito corredor, destrancou o cadeado e, novamente, ouviu o girar de uma maçaneta. Não houve tempo para pensamentos: bastou uma única fresta se abrir para que o vento alcançasse a nudez mais escura de seu corpo, guardada por baixo de suas muitas camadas de cobertor. Julho, ele pensou, sem mais possibilidade de recuo. Tomado por um fino orvalho, avançou em sua caminhada, deixando que os vestígios de sonho se desprendessem de sua pele: um só sopro do vento bastou para levar as folhas secas. Sentiu ter o peso de uma flor de leão e viu-se passar, entre todas as coisas que o ar arrastava, acima do cimento. Seguiu, tomado por uma sensação completamente desconhecida de frio. Do lado de fora da janela, a imagem da cama ainda quente fazia tremer seu corpo descoberto e lhe empurrava uma vontade de calor, que não demorou a se precipitar num par seco de lágrimas. Julho, ele pensou, descosturando as minúsculas linhas que mantinham seu corpo coeso. O vento prosseguia num acordar de escuros. Revolvia todos os espaços vazios e trazia para fora, em forma de arrepios violentos, seus silêncios dormidos. Estancou os passos, de súbito, quando se viu atado invisivelmente aos objetos do mundo, e buscou em sua lembrança o traçado de seu corpo. Firme. Único. Abraçou sua própria pele, querendo lembrar-se da solidão de seu corpo, mas seu interior estava disperso e embaralhado à montoeira de coisas que as massas de vento carregavam. Não havia mais volta, pensou: Julho. Viu sobre a neve acima do cimento algumas das linhas que antes amarravam seu corpo e tentou segui-las numa tentativa última de rastrear-se pelo inverno, mas Julho se amontoava no interior de seus órgãos e paralisava alguns de seus movimentos. Desejou chorar, e chamar de volta meia dúzia de sonhos; sentir-se amparado por quatro margens regulares de madeira e calor; apagar a sensação crua da dor, a dormência, os arrepios. O frio não deixava dúvida: era um corpo o que ali existia. Sem sossego, sem abraço, sem nada. Só um corpo. Nu, invadido por olhos-de-leão. Nem a memória vinha: ela se dilatou num presente contínuo, sem volta. A verdade do corpo se cravava na pele, imediata e rude: ele queria voltar, mas Julho, dono absoluto de seu corpo, calou também a respiração. De dentro de um cubo de gelo, abandonado em si mesmo, gritou por longas horas, e vidas inteiras. Até o momento em que decidiu afastar do corpo as muitas camadas de cobertor que o revolviam, escorrer pelo lado esquerdo da margem regular de madeira e fechar, de uma só vez, a janela, a paisagem e o frio do mundo do lado de fora.

*Graduada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Uff. Mestre em Comunicação, Imagem e Informação pela Uff. Revisora de textos da Casa da Ciência (Botafogo/RJ). Professora de Jornalismo da Unifoa. Co-autora do livro de contos "O ouro lado do sol", publicado em 2008. Já recebeu alguns prêmios em concursos literários, como o Concurso Municipal de Contos da prefeitura de Niterói.

2 comentários:

boogienwoogie disse...

bravissimo! amei a riqueza de detalhes, mto expressivos!!!

julia disse...

Muito bom!! Bem vinda à Bolhas!!